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Apoio: 


A viagem: exposição retrospetiva do pintor António Carmo
50 anos de pintura

EXPOSIÇÃO | 16 maio - 1 set.'17 | Galeria do Auditório | Entrada livre

 

Há muitas maneiras de se olhar para uma pintura. Duas delas, as mais evidentes, são as que ligam importância à cor ou ao desenho. Acabava eu de ver a exposição de  António Carmo para a Biblioteca Nacional  e voltando para a Covilhã pensei  nessa noite em Kandinsky.  Como o pintor russo que punha a cor acima de tudo (há anos vi uma retrospectiva da sua obra em Paris que me deixou completamente  “azul “)  também o português  privilegia a cor como forma de expressão. Uma semana mais tarde,  encontrei  o pintor em Lisboa e falei-lhe do Kandinsky, e, curiosamente, o António  Carmo confirmou a minha impressão.  É um fulgurante fogo-de-artifício de cores a pintura carmiana e que naturalmente conduz à poesia. E raramente se vê isto em Portugal. É por isso que o visitante da sua obra, tem uma adesão imediata aos seus quadros. É subjugado por uma paleta de cores incríveis que vão directamente ao coração. À emoção.

 

António Carmo tem um dom raro, que não é apanágio de muitos criadores portugueses: o equilíbrio e o posicionamento das cores. Tudo parte daí. Nada é acessório ou supérfluo. Tudo contribui para uma explosão quente e inaudita de cores. O vulcão colorido de António Carmo não escolhe públicos. Fascina tanto  o erudito, como o homem comum. É o seu grande trunfo e o facto de ele ter exposto mais no estrangeiro onde a sua criação é consagrada  e respeitada, prova que a sua qualidade é mais reconhecida lá fora que no país. Não é normal isso, mas a verdade é que se continua a viver um provincianismo cinzento em  Portugal.

 

Poucos críticos de pintura, poucos  espaços  de divulgação nos jornais, poucas galerias em actividade. Quais são os pintores  portugueses que se orgulham de ter exposto em Inglaterra, Espanha, Holanda, Bulgária, Alemanha, na antiga Checoslováquia, Luxemburgo, U.R.S.S, Japão, Macau, Austrália, Marrocos, Canadá, Venezuela, Suécia, Brasil, Polónia e Bélgica? Poucos. É por isso que os lisboetas  devem correr até à Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, para descobrir este portentoso disseminador de cores, um cirurgião da emoção colorida.  Anita Nardon, uma reputada crítica belga, bem viu isso em António Carmo e afirmou: «Com cores quase primárias, ele consegue fazer um grande equilíbrio na cor». Homem  culto que conhece os seus pares antigos ou vivos (admira Léger, Chagall, Picasso, Mondrian,  os expressionistas alemães, os grandes muralistas mexicanos Rivera, Siqueiros etc  e os portugueses Amadeo, Eduardo Viana, entre outros), António Carmo não foi  sempre um cromático. Começou pelo  desenho e só mais tarde se encaminhou para o guache e o óleo. Fez desenho de intervenção,  de combate, contra o fascismo, com uma grande força visual. Ilustrou livros e o suplemento cultural do jornal “ O Diário” e deu também desenhos para “ O Ponto”.

 

Em 1970 fez a sua primeira exposição de desenho contra o sistema, tendo sido visitado pela PIDE. A mostra, apadrinhada pelos pintores João Hogan e Jorge Barradas, foi um sucesso e a imprensa deu destaque ao acontecimento. Entrou na cor depois do 25 de Abril, e nunca mais parou este antigo aluno da António Arroio que foi bailarino durante muitos anos e que nunca pensou ganhar a vida como pintor mas sim como designer ou publicista. Esta exposição  de António Carmo – uma explosão vivificante de cores – conduz-nos a uma alegria e a um bem-estar perenes. Ela tem também um lado reconfortante e mágico. […] Músicos, compositores, pintores, poetas, cruzam-se com figuras mitológicas do amor, e até há um quadro autobiográfico com o próprio pintor,  na última tertúlia da Brasileira.  Como Mário Cesariny, outro grande pintor, António Carmo, o poeta que desenhou  a última capa da revista de Natal do Jornal do Fundão, pode dizer: «Sou um homem / um poeta / uma máquina de passar vidro colorido».

 

Despachem-se pois para  ver esta exposição de António Carmo porque não é todos dias que um pintor cheio de força e vontade criativa tenta fazer concorrência ao sol português que ilumina tudo.

Manuel da Silva Ramos (2016)